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Subtilmente

Um sítio onde a fotografia se encontra com a literatura e a delicadeza com o desassossego. Subtilmente.

Maio


Calendário Improviso
Doze textos para doze fotos de Sílvia Bernardino.

Como amigos

janelas que nos fazem crescer, que nos fazem sonhar, que nos fazem sorrir. Janelas que nos fazem ver para além daquilo que conhecemos, daquilo que sentimos, daquilo que esperamos. Janelas que nos interpelam e desafiam, que nos desassossegam ou confortam. Janelas que nos fazem mexer. Janelas que são como amigos.

Leiria

- Vamos ver os barcos? 

Avança pela pequena rua, decidido. E eu sigo-o, algo intrigado: o mar fica a vinte quilómetros de distância, naturalmente que não existirão barcos em Leiria; então, que barcos quererá ele mostrar-me? Caminhamos em silêncio durante alguns instantes, depois viramos uma esquina, entramos no Terreiro. De manhã já visitara este largo, impressionando-me com a beleza e imponência dos velhos palacetes, deambulara ao acaso por aqui descobrindo pormenores, espreitando e imaginando, saboreando a tranquilidade; não me cruzara com uma única pessoa. Olhara para aqueles palacetes como se fossem livros: daqueles que nos dão algumas indicações e depois permitem que, a partir dessas pistas, construamos mundos, ficções, fantasias, desvarios, inquietações. 

Os palacetes mantêm-se exactamente como os recordava mas, agora, a rua está repleta de pessoas; e todas caminham na mesma direcção, a direcção que eu e o meu amigo também seguimos. Rua Direita. É então que percebo. O início desta mítica rua leiriense quase parece um túnel citadino, uma estreita e sombria passagem ladeada por duas enormes construções seculares. Avançamos alguns passos no interior deste túnel e o que vejo faz-me sorrir: uma rede de pesca foi suspensa das janelas e varandas do primeiro andar, formando uma cobertura sobre a rua; e a rede está repleta de barcos de papel, de vários tamanhos e cores diversas, balanceando suavemente ao vento. É impossível não sorrir perante esta visão inesperada e onírica. Tal como eu faço, as pessoas param e olham, depois tentam passar entre os barcos suspensos que oscilam suavemente para trás e para a frente; e sorriem; há quem tire fotos, crianças perguntam aos pais se podem levar um barquinho para casa. Um rapaz deita-se no meio da rua para ver bem os barcos, como se estivesse deitado num campo e olhasse as nuvens no céu. Um velhote diz, para ninguém em particular: «Fazia barcos destes quando era garoto, iguaizinhos.»; e sorri. Uma menina diz: «Parece um bailado de barcos.» Gostaria de ficar aqui horas, a ver as reacções das pessoas, a testemunhar os sorrisos; mas o meu amigo puxa-me pelo braço. 

- Ideia engraçada, não é? 

Explica-me que os barcos de papel a balancear no ar (e não nas ondas, que não existem em Leiria) são uma das muitas iniciativas englobadas num festival chamado A Porta. Toda a Rua Direita foi tomada de assalto por gente com vontade de agitar e transformou-se num viveiro de actividade e vida. Há concertos em locais inesperados, vendas de artesanato e de comida, artistas de rua em acção, um palacete ocupado por artistas e transformado numa galeria de arte labiríntica e mutante, teatro e exposições; tudo em simultâneo. Vamos deambulando entre o fervilhar de pessoas sorridentes que se acotovelam e caminham ao acaso, espreitando por todas as portas abertas que encontram, procurando algo que não sabem o que é, surpreendendo-se a cada instante. Aqui canta-se, ali dança-se, acolá bebe-se uma cerveja. Compra-se um livro, tira-se uma fotografia a uma janela bonita. Encontra-se uma pessoa conhecida, dá-se um abraço. Anda-se em frente, volta-se para trás. Não se dá pela passagem do tempo. 

Há dezenas de pequenas ruelas que embocam na rua principal e cada uma delas é um convite à descoberta, à deambulação. Pergunto-me como será toda esta zona num período mais tranquilo; num domingo de manhã, por exemplo: imagino ruas quase silenciosas e desertas, o som difuso de música vindo de uma janela ou outra, um gato a dormir ao sol, um pai a mostrar ao filho as pinturas de rua que foram sendo feitas como se as paredes fossem telas gigantes; lojas antiquadas e edifícios abandonados que remetem para o passado; intervenções arquitectónicas e espaços comerciais com um toque cultural que remetem para o futuro; um velho que se arrasta agarrado a uma bengala, talvez assobiando; o cheiro de um bolo de laranja colocado numa janela a arrefecer; um turista japonês que tira fotografias a cada cinco passos; o castelo sempre a espreitar, lá em cima; o som distante de um sino. A memória de outros tempos, omnipresente em cada esquina, em cada fachada, em cada momento; uma memória melancólica mas não opressiva. 

- As pessoas queixam-se muito que esta zona da cidade está um bocado morta. E talvez tenham razão, basta reparar no estado de degradação de muitos destes prédios. Mas por outro lado, olha em volta. Neste momento, estão aqui centenas de pessoas. As ruas são as mesmas, os prédios são os mesmos. Mas sente-se um fervilhar de vida que impressiona e que contagia. Neste momento, esta rua não tem nada que lembre abandono, é um exemplo de dinamismo e de vida, de intervenção social e cultural, de arte, de alegria. Caminhas entre toda esta gente e sentes-te vivo, sentes-te feliz. Sentes que fazes parte de algo dinâmico e cosmopolita. Claro que amanhã regressa tudo ao normal, e o normal não é tão entusiasmante. Mas a rua é a mesma, o espaço é exactamente o mesmo. Percebes? Por vezes, penso que é tudo uma questão de ângulo, de forma de olhar. Não achas? Podemos olhar e ver abandono; ou podemos olhar e ver potencialidade, oportunidade, desafio. E depois, se virmos por esse ângulo, podemos intervir, podemos fazer com que as coisas aconteçam. 

Percorremos toda a Rua Direita e desembocámos em frente da Sé. Uma rapariga desenha um insecto gigante numa parede branca, perante o olhar invejoso de algumas crianças. Ouvem-se risos e conversas, pessoas caminham em grupos; várias músicas diferentes misturam-se e formam uma banda sonora confusa mas cativante, como se cada uma das músicas lutasse pela atenção de cada uma das pessoas. Cheira a comida, cheira a plantas. Escuto o desabafo do meu amigo e, silenciosamente, concordo com ele; estou-lhe agradecido por me ter trazido a este túnel disfarçado de porta, a esta entrada para uma cidade que as pessoas tornam viva e vibrante com a sua presença, com as suas vozes e risos, com o seu entusiasmo. Mas percebo a tristeza das suas palavras, a tristeza que se sente quando vivemos euforicamente um dia muito especial e, de repente, recordamos que o amanhã voltará a ser normal. 

Sentamo-nos num banco e observamos as pessoas que passam, saindo ou entrando na Rua Direita, n’A Porta. Alguém diz: «É giro quando as pessoas se unem para tornarem a cidade feliz.» Há quem faça planos sobre o que deseja experienciar, há quem comente o que viu, há quem elogie, há quem critique, há quem simplesmente sorria, há quem caminhe ao acaso. Observo o fluxo imparável e, de súbito, percebo que é isso que une a maioria das pessoas que passam: caminham ao acaso e sem rumo certo, expectantes e curiosas, em busca de algo indefinido, prontas para serem surpreendidas. Ao acaso, como barcos deambulando nas ondas de um oceano sereno; como barquinhos de papel balanceando ao sabor do vento. Livres.

Olá

Chamo-me Paulo e por vezes escrevo uns textos. Isso não me torna especial, é apenas algo que faço como (por exemplo) outras pessoas correm maratonas; porque é um desafio, porque é possível. Há alturas em que é necessário, como se uma força interior incontrolável me empurrasse nalguma direcção e nada pudesse impedir o avanço. Tem de ser, e não se questiona, faz-se; tal como não se questiona a importância de respirar ou olhar o céu ou ouvir o riso daqueles que amamos. Por vezes, escreve-se ou corre-se a maratona pela mais simples e pura das razões: porque sim. Não é para ganhar medalhas nem para alimentar vaidades, não é para salvar o mundo; não é para viver para sempre ou deixar uma memória que não desapareça; não é porque alguém disse que faz bem. É porque sim. Já achei que a escrita me poderia salvar, que me poderia dar um sentido, que me poderia redimir; já pensei muito disparate, e irei continuar a pensar novos disparates porque isso é tão natural como respirar ou olhar o céu ou querer ouvir o riso daqueles que amamos. Uma coisa que sempre pensei, que continuo a pensar, e ainda não sei se será disparate ou não, é que apesar da escrita ser na sua génese um acto egocêntrico, o seu sentido último está na procura do outro, na partilha com o outro. Um texto existe realmente se não for lido? Existe, mas é um pouco como falar para o espelho no elevador. Escrever não será necessariamente uma busca de compreensão ou validação ou justificação; será antes como entrar numa sala cheia de gente e dizer olá, a ver se alguém responde e o que nasce daí. E a maior parte das vezes não nasce nada mas o que importa é que existiu a possibilidade, foi criada uma oportunidade. Talvez a relação entre quem escreve e quem lê seja um pouco como aquilo que alguns de nós fazíamos quando éramos crianças: unir dois copos de iogurte vazios com um fio e fingir que era um telefone. É uma relação feita de ingenuidade e fantasia e equívoco e adivinhação e confiança; apenas faz sentido se do lado de lá estiver alguém a pegar o iogurte vazio, a encostá-lo ao ouvido; só faz sentido quando há dois copos de iogurte e um fio a uni-los. Se na fase egocêntrica sinto a escrita como uma forma de tentar pensar e questionar, de tentar lidar com incertezas e angústias e medos e deslumbramentos, quando se passa à fase do iogurte e do cordel há a expectativa de que aquilo que começou como reflexão permita causar algures, em alguém, um sorriso ou um pensamento ou uma emoção ou um desassossego ou um arrepio. Acreditar que isso possa acontecer talvez seja pretensiosismo e vaidade, talvez seja arrogância, talvez seja ingenuidade; talvez seja coisa de pessoa boba, no sentido que Clarice Lispector lhe dá no seu texto Das vantagens de ser bobo (“…Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas.”). Afinal, nada disto é especial: juntam-se palavras para ver onde isso conduz, tal como um maratonista dá um passo e depois outro e mais outro e, de repente, já está lá à frente. Mais uma vez, juntei uma palavra e a seguir outra e, agora, chegámos aqui; é tudo. Não se questiona, faz-se; tal como não se questiona a importância de respirar ou olhar o céu ou ouvir o riso daqueles que amamos.

Crónica para o Jornal de Leiria.

Ponte Escrita

Porquê participar em encontros literários? Quando o encontro em questão se chama Ponte Escrita, a resposta é mais ou menos óbvia. Participa-se para construir pontes com leitores e outros escritores; mas também comigo próprio. Para ouvir e observar, para descobrir, para ficar desassossego, para rir, para pensar, para sentir. E assim descobrir novos caminhos interiores, olhar para fora e permitir que novas ligações e novas pontes se formem cá dentro. Pontes que até podem nem ser atravessadas, por vezes basta saber que existem; basta saber que são uma possibilidade. Tal como as pontes que se estabelecem com os outros. E talvez seja isso o fundamental, criar uma rede de possibilidades, de caminhos abertos, de rotas imagináveis; porque cada pessoa com quem nos cruzamos pode ser simultaneamente um destino e uma ponte.

Parabéns à Sílvia, ao Altino e a todos os que ano após ano constroem esta ponte escrita. Obrigado por me convidarem a atravessá-la.




Viajar sem ter ido

Texto escrito em pareceria com Teresa Bret Afonso, a coleccionadora de sorrisos.

Se lhe perguntassem

Via como as nuvens passavam, via como os pássaros passavam, via como as crianças passavam. Tranquilas, as nuvens; ruidosos, os pássaros; alegres, as crianças. 

Se lhe perguntassem:
«És uma árvore feliz?»
Responderia sem hesitação:
«Sou.»

Porque sentia-se genuinamente feliz. Mas, apesar da felicidade, via como as nuvens passavam, via como os pássaros passavam, via como as crianças passavam; e invejava um pouco a liberdade de nuvens e pássaros e crianças. Invejava a possibilidade de passar, que era algo que nunca poderia fazer. O destino das árvores é estar, e não passar. E ela estava, imaginando como seria passar. Sonhando.

Se lhe perguntassem:
«És uma árvore sonhadora?»
Responderia sem hesitação:
«Sou.»

Se não fosse envergonhada, explicaria que o sonho era a sua verdadeira raiz; era o sonho que a sustentava, sólida e forte, e lhe permitia crescer centímetro a centímetro em direcção ao sol. Mas falar de sonhos não é conversa que uma árvore tenha, suspeitava que não seria realmente compreendida se confidenciasse os seus segredos a alguém. E a sensação de incompreensão era um tipo de solidão que sentia de forma particularmente incisiva, mas inconfessável (porque falar de solidão também não é conversa que uma árvore tenha). E por isso, distraía-se: via como as nuvens passavam, via como os pássaros passavam, via como as crianças passavam.

Tranquilas, as nuvens; ruidosos, os pássaros; alegres, as crianças. Mas as nuvens nunca paravam, os pássaros nunca pousavam, as crianças nunca se aproximavam.

Até que um dia, estava a árvore a pensar nos seus sonhos quando se aproximou uma criança; dia sem nuvens e em que ainda não se tinham visto pássaros por ali mas a criança aproximou-se mesmo. E ali ficou a olhar a árvore com os seus olhos brilhantes e curiosos; rodeou-a e andou à sua volta, tocou-a com os seus dedos pequeninos.

«Falas português?» 

Perguntou a menina. A árvore sorriu, apesar de não ter boca nem músculos nem olhos que pudessem brilhar; apesar de não ter rosto. Mas sorriu, porque para sorrir basta ter corpo.

«Olha, podes fazer-me um favor?»

E sem esperar uma resposta, começou a prender o balão que trazia consigo num dos ramos da árvore.

«Tomas conta do meu balão, enquanto vou andar de bicicleta?»

Era um balão vermelho. E a árvore imaginou que o seu ramo era uma mão, imaginou que o seu tronco era o corpo de uma menina; imaginou-se criança a passear um balão vermelho, pés descalços na relva verde, cabeça erguida em direcção ao céu azul; e a brisa a fazer cócegas na sua pele. Imaginou ou sonhou?

Se lhe perguntassem:
«Preferes sonhar ou imaginar?»
Responderia sem hesitação:
«Prefiro quando não consigo distinguir uma coisa da outra, quando se misturam.»

Se passasse ali um pintor talvez gostasse de fixar numa tela aquele quadro inesperado: uma árvore a fingir-se criança. Mas não passou nenhum pintor e a árvore deixou-se estar quieta, completamente quieta (na sua imaginação, mexia-se muito; e nos sonhos também); a saborear aquela novidade, a sentir aquele momento. A viajar com o seu balão.

Mas depois de um momento vem sempre outro. E ninguém poderia adivinhar que o momento que estava quase a chegar seria um momento mau. Começou quando a árvore sentiu que o cordel que prendia o balão ao seu ramo começava a libertar-se muito devagarinho. E por mais que a árvore imaginasse ou sonhasse, por maior que fosse o seu desejo ou a sua aflição, o ramo não conseguiria transformar-se numa mão, em dedos que pudessem segurar e prender o fio. Imaginou e sonhou, desesperada; mas o fio soltou-se.

O balão subiu ao céu, lento. Parecia um bailarino envergonhado, pensou a árvore. A subida do balão no céu parecia uma dança, pensou a árvore.

Se lhe perguntassem:
«Gostavas de dançar?»
Responderia sem hesitação:
«Muito. Farto-me de dançar em sonhos. E na imaginação também.»

Mas as árvores não podem dançar, tal como não podem correr atrás dos balões que lhes fogem das mãos que não possuem. O balão fugia e a árvore olhava, dividida entre a vontade de apreciar a beleza daquele voo e a aflição que sentia por ter decepcionado a menina. Na verdade, foi um dos piores momentos da sua vida, nunca sentira o desespero de não poder agarrar algo que lhe escapava. Nunca pensara nisso mas, de repente, pareceu-lhe que talvez fosse essa a mais bonita capacidade dos humanos: a de agarrar. Agarrar-tocar-pegar-segurar-cuidar.

Ainda não tinham aparecido pássaros. Mas surgira uma nuvem, pequena e branca; lá estava ela, como se o céu fosse o seu quarto. E o balão vermelho ia subindo na sua direcção, como se tivesse sido convidado para ir brincar no quarto da nuvem. Apesar da aflição que sentia, a árvore não conseguia deixar de achar aquilo bonito. E quase se esqueceu que havia uma menina a andar de bicicleta, algures.

«Onde está o meu balão?»

Durante um instante, a árvore teve medo. Medo que a menina se chateasse, medo que a menina chorasse, medo que a menina lhe arrancasse ramos, medo que a menina ficasse triste para sempre. E quis fugir. Mas não fugiu, porque era uma árvore e as árvores estão presas à terra pelas suas raízes. (Sim, acreditava que o sonho era a sua verdadeira raiz; era o sonho que a sustentava, sólida e forte, e lhe permitia crescer centímetro a centímetro em direcção ao sol. Mas poderia o sonho ser, também, uma prisão?, perguntou-se um pouco desesperada.)

Depois de um momento vem sempre outro. E ninguém poderia adivinhar que o momento que estava quase a chegar seria um momento bom.

«Oh, foi brincar com aquela nuvem. Que giro.»

A menina olhava para o balão vermelho, que prosseguia o bailado no céu azul. A árvore viu que a menina sorria, apesar de ter perdido o seu balão. E sentiu-se feliz; apesar de saber que muitas vezes a felicidade se confundia com alívio, pareceu-lhe que naquele momento o que sentia era mesmo felicidade.

Ficaram a olhar o balão, a menina e a árvore. Durante muito tempo.

«Fizeste bem em deixá-lo voar.»

Disse a menina. E mais tarde, acrescentou numa voz baixinha:

«Às vezes, gostamos tanto das coisas que não conseguimos largá-las.»

E a árvore, que pouco antes percebera que a melhor coisa de ser pessoa era poder agarrar-tocar-pegar-segurar-cuidar, ficou a pensar se a melhor coisa de ser árvore não seria o poder largar. Largar folhas, largar frutos, largar sombras; por exemplo. Ou: largar balões.

De repente, a menina queixou-se que já lhe doía o pescoço. A árvore, que se distraíra a filosofar sobre as suas teorias do agarrar e do largar, ficou a ver a menina afastar-se. Talvez ela regressasse noutro dia, com um novo balão. E perguntasse:

«Queres largar este balão comigo?»

Ou talvez nunca mais voltasse. E os dias prosseguiriam como sempre. Veria como as nuvens passavam, veria como os pássaros passavam, veria como as crianças passavam. Tranquilas, as nuvens; ruidosos, os pássaros; alegres, as crianças.

E se lhe perguntassem:
«És uma árvore feliz?»
Responderia sem hesitação:
«Sou.»
Mas nunca ninguém perguntava.

O balão vermelho lá continuava no céu, a bailar atrás da nuvem. E a árvore olhava-o, via como deambulava livre, solto, leve; via como passava. Olhava-o e sorria, apesar de não ter boca nem músculos nem olhos que pudessem brilhar; apesar de não ter rosto. Mas sorria, porque para sorrir basta ter corpo.