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Libelinhas




22º ACASO Festival de Teatro
Sábado 21/10
Espaço O Nariz / Leiria – 22h

O Nariz Teatro – Leitura pública da peça “Libelinhas” (a estrear em 2018)
Autor – Paulo Kellerman
Encenação – Pedro Oliveira
Interpretação – Ana Moderno, Bruno Jerónimo, Liliana Gonçalves, Sónia Pedrosa, Laura Perdomo Bouza Mayor e Tânia Chavinha

Um grupo de amigos reúne-se com a intenção de organizar um plano de apoio aos refugiados. Entre seriedade e riso, tensões e debates, cumplicidades e antagonismos, confissões e indiferenças, embrenham-se nos seus próprios problemas e as boas intenções vão-se revelando inconsequentes, tão bonitas quanto fugazes. Tal como o voo das libelinhas: a sua beleza cativa e seduz mas não deixa rasto. E se no oriente as libelinhas simbolizam a capacidade de transformação e de mudança constante, talvez para estes amigos ocidentais representem apenas efemeridade e inconstância. Seremos todos libelinhas?

Rascunhos de Verão

Fio
«Imagina que és um papagaio de papel a voar entre as nuvens, no meio do céu azul. Sabes aquele fio fininho e quase invisível que te prende à terra e te guia, que te dá sentido e orientação? É como a memória. Se não fosse esse fio, andavas simplesmente às voltas, perdido no vento.» Diz o avô ao neto.

Estória de amor I
Era uma vez uma sereia que se apaixonou por um marinheiro. Seguiu o seu barco durante anos e anos e anos, à espera que ele a olhasse. E um dia, ele olhou-a. Nervosa, ela disse: «O meu sonho é plantar um jardim contigo. E vê-lo crescer.» O marinheiro sorriu e respondeu: «Adoro sonhos impossíveis.» 

Estória de amor II
O marinheiro construiu uma cabana numa falésia com vista para o mar; nas traseiras, havia uma pequena lagoa, onde a sereia nadava e o marinheiro passeava de canoa. Ao fim da tarde, cuidavam juntos do jardim que todos os dias crescia mais um pouco. E diziam um ao outro: «Não há sonhos impossíveis.»

Uma azeitona
O menino encontra uma azeitona no chão. Pega-a delicadamente e, com um sorriso no olhar, aproxima-se do avô, estende-lhe a mão. «Que se passa? Que tens aí?», pergunta o avô. O menino estende a mão com a azeitona e sorri ainda mais: «Trouxe-te uma árvore.»

Raízes no bolso
O avô apanha um punhado de terra e coloca-a no bolso das calças. Depois, apanha um novo punhado de terra e coloca-o no bolso das calças do neto. Responde ao seu olhar interrogador: «Faz de conta que somos árvores. E precisamos alimentar as nossas raízes, não é?»

Iupi?
Pegam num avião de papel, colocam um caracol lá em cima, põem-lhe uma carica a fazer de capacete, prendem tudo com fita-cola. E atiram o avião com força. Imaginam que o caracol voador diz “iupi”. Mas talvez tenham percebido mal. E felizmente não se aleijou. «A carica foi uma boa ideia.»

Árvore de giz
O menino decide que não é bonito guardar a sua colecção de folhas de árvore presa numa caixa. Então, desenha o tronco de uma árvore com giz, numa parede do seu quarto; depois cola as vinte e três folhas da colecção nos ramos desenhados. Quando vê a árvore de giz, a mãe ralha muito; mas por dentro, está a sorrir.

Diálogo
Há pessoas que gostam de estar em varandas e ver as nuvens passarem. Há nuvens que gostam de ver pessoas nas varandas a olharem para si. Não fosse a timidez e talvez até pudessem conversar entre si, estas pessoas e estas nuvens. Diriam: «Boa tarde». Diriam: «Está fresco, hoje». Diriam: «Até breve».

Já está
«Vou levar a lua para casa», diz o menino. A mãe encolhe os ombros e sorri. «E como vais fazer isso?», pergunta a mãe. O menino sorri o seu sorriso de menino, que é igualzinho ao da mãe; sorrisos gémeos. Depois, olha directamente para a lua como se a estivesse a ver pela primeira vez, fecha os olhos com força, respira fundo (ou seja: faz muito barulho a respirar) e diz: «Pronto, já está. Guardei-a.»

(Crónica para o
Jornal de Leiria.)

Chamamento

Porque estás aqui?
Qual a importância deste momento?
Já reparaste como a vida avança em ciclos?
Dias que se sucedem. E depois semanas, meses, anos.
É como se vivesses no interior de uma rotunda, sempre às voltas.
Porque, no fundo, tudo é circular. Tudo se repete.
E os momentos vão-se dissolvendo uns nos outros, misturando-se.

Como enganar o futuro e torná-lo inesperado?
Como sair da rotunda?
Afinal, o futuro tem pouco de verdadeiramente imprevisível.
Mesmo que os acontecimentos te surpreendam, tu és sempre tu.
A forma como vês e ouves é sempre a mesma.
Apenas tens dois olhos. Dois ouvidos.
És uma constante que vai evoluindo mas sem efectivamente mudar na essência.
És uma repetição.

És incapaz de te surpreender a ti próprio e isso perturba-te, irrita-te.
E desejas desafiar o futuro a surpreender-te.
Nunca tentaste fazer algo inesperado, algo que baralhe o futuro?
Tentar inverter a normalidade, tentar suspender a marcha do tempo.
Fazer com que cada momento conte por si.
Não é por isso que estás aqui?
Para contornar a previsibilidade, desafiar a rotina, procurar a surpresa?

É verdade que os dias se sucedem, e depois as semanas, os meses, os anos.
Mas o que conta é cada um dos momentos que compõem esses dias.
O que conta é o presente.
O que conta é estar aqui e agora.
Porque o aqui está repleto de possibilidades, de oportunidades, de desafios.
E talvez assim possas surpreender o futuro: não pensando nele.
Não olhando para o presente como se olha pela janela: sempre à espera de algo.

Porque estás aqui?
Por causa do momento.
Porque é aqui que está o teu presente. Em cada momento.
Sincroniza-te com ele.
Sim, tal como sincronizas as músicas no telemóvel.
O resto… O resto é passado, é silêncio, é esquecimento.
Que se lixe o resto.
Porque estás aqui?
Porque sentes o chamamento do presente.





Letra escrita para uma música dos First Breath After Coma, cantada / declamada pelo Carlos Matos (Broto Verbo). O convite foi do Hugo Ferreira (Omnichord Records) e a canção - Chamamento - surge no disco Leiria Calling, distribuído pela revista Blitz em 2014.
(Foto: Teresa Afonso.)

Personal Jesus


(I) Lembro-me onde estava no dia 11 de Julho de 1993: Estádio José Alvalade. Ali à frente, a minha banda preferida. Cantei, dancei, pulei, gritei. Acho que chorei. Fui de expresso com uma amiga, comprei uma t-shirt. Também me lembro onde estava no dia 8 de Julho de 2017: Passeio Marítimo de Algés. Ali à frente, a minha banda preferida. Cantei, dancei, pulei, gritei. Sei que não chorei. Fui com a família, não comprei nenhuma t-shirt. Entre os dois momentos, passaram vinte e quatro anos; e apesar da banda preferida ser a mesma, tudo parece infinitamente diferente. Ou tudo parece tão semelhante? Continua a existir uma sensação de pertença e de identificação quando se grita em conjunto com milhares de pessoas desconhecidas frases que são sentidas como slogans pessoais, como revelações íntimas. Continua a fazer sentido, tal como fazia há vinte e quatro anos, partilhar com a multidão anónima confissões e apelos como “Now I'm not looking for absolution, Forgiveness for the things I do, But before you come to any conclusionsTry walking in my shoes.” Uma forma pagã de reza, talvez. A procura de um qualquer Deus: “Your own personal Jesus, Someone to hear your prayers, Someone who's there.” Cada um reza como pode, como sabe, como consegue, como precisa; com o timbre individual do seu desespero.

(II) Desde a adolescência que desconfio que não existe Deus. Confesso que gostava que existisse, dava-me jeito que existisse, por vezes até tenho uma certa inveja de quem está convencido que existe. Mas não consigo acreditar, basta abrir os olhos e olhar em redor: as evidências que comprovam a impossibilidade de existência de um ser superior, perfeito e omnipotente, bondoso, saltam de todos os lados. Haverá quem diga exactamente o oposto, que saltam à vista as evidências que comprovam essa existência. Questão de perspectiva, questão de fé. Ou questão de desespero.

(III) Tenho uma amiga que diz que o destino é um palhaço. Entre nós, concordamos que o destino brinca e provoca, desconcerta, baralha; ou seja, faz palhaçadas; mas em vez de usar balões e esguichos de água e sapatões gigantes, usa as nossas vidas. Fingimos que não mas, no fundo, temos algum medo porque a total arbitrariedade e imprevisibilidade assusta um pouco. Ou muito, talvez assuste mesmo muito. E deve ser por causa desse medo ancestral que procuramos incessantemente um sentido, uma lógica, uma coerência. Procuramos um qualquer “Personal Jesus” que domestique o destino e o obrigue a portar-se bem connosco, que nos permita esquecer que somos apenas uns balõezinhos nas mãos de um palhaço descontrolado; que nos permita esquecer que a qualquer momento podemos rebentar; que nos dê a ilusão de que existe um sentido e um propósito em rebentarmos.

(IV) Talvez não pareça mas esta crónica é sobre o inominável. EN 236-1. E termina como começou, com os Depeche Mode: “I don't want to start any blasphemous rumors but I think that God's Got a sick sense of humor and when I die I expect to find Him laughing.”

Crónica n.º 55 para o Jornal de Leiria.

Loucura

Novo ebook.

Com fotos de:
Ana Luísa de Melo | Andreia Monteiro | Bruno Mourinha | Carla de Sousa | Catarina Mamede | Cláudia Andrade | Cristina Lopes | Elsa Alexandrino | Elsa Margarida Rodrigues | Fátima Abreu Ferreira | Francisco Moreira | Helena Serrador | Inês Sarzedas | Liliana Carvalho | Liliana Gonçalves | Luciana Esteves | Mafalda Malafaya | Maria João Alves | Maria João Dias | Maria João Faísca | Mónia Camacho | Ricardo Graça | Ritabela Santos | Rosa Paixão | Selma Preciosa | Sílvia Bernardino | Sónia Serafim | Sónia Silva | Sonja Valentina | Teresa Bret Afonso | Teresa Marques dos Santos

O rasto da sardanisca

Era uma vez um sítio onde faltava uma árvore. Havia campo e nuvens, o cheiro da relva, borboletas e caracóis, silêncio. Mas faltava a árvore. 

– Faltava eu. 

– É estranho pensarmos em como seria o mundo antes de fazermos parte dele.

– Ainda me lembro da plantação da minha semente, foi como se a natureza se tivesse unido e trabalhado em conjunto, uma espécie de dança do sol e da chuva e da terra, para me receber. Para que se cumprisse aquilo que eu já era em potência: uma árvore.

– São essas as tuas primeiras memórias? De antes de nasceres?

– Sim. Mas lembro, também, o que senti quando era uma árvore recém-nascida. Olhar em volta e descobrir o mundo pela primeira vez, senti-lo, respirá-lo, cheirá-lo. E pensar: uau. Pensar: caramba. Pensar: isto é tão fixe.

– Nascer deve ser uma coisa bem boa. Gostava de experimentar, um dia.

– E logo depois apareceu um cão e fez xixi mesmo em cima de mim. E eu pensei: está a regar-me. E até isso pareceu fixe. Mas foi o primeiro contratempo que tive. Porque apesar de ser fixe, era um bocado desagradável. E apeteceu-me sair dali. Foi então que percebi: oh, não consigo mudar de sítio. Estou presa.

– E isso deixou-te triste?

– Não. Sentia-me feliz. Como é que alguém que acabou de nascer se pode sentir triste? Tem a vida toda pela frente e o mundo inteiro para conhecer. O tempo ainda está a começar.

– Eras uma jovem árvore muito ajuizada. Mas também um pouco sonhadora.

– Sentia muita curiosidade. Curiosidade pelo mundo que existia para além do que me rodeava, do mundo que não conseguia ver nem respirar nem cheirar. Sentia uma vontade enorme de conhecer, de aprender; e perguntava-me se não existiria uma forma ou um local onde se pudesse conhecer e aprender tudo o que existe para saber sobre o mundo.

– Existe. Chama-se escola.

– Sim. E era esse o meu sonho, enquanto crescia. Já que não podia ir à escola, porque estava presa à terra, que viesse a escola até mim. Para me ensinar o mundo. E às vezes, segredava esse pedido ao deus das árvores: traz-me uma escola. 

– E eu ouvi.

– Ouviste. Houve um dia em que apareceram pessoas. Estava habituada às borboletas e aos caracóis, aos coelhos selvagens e aos pássaros, às sardaniscas, mas nunca vira pessoas. Fiquei a observar como andavam de um lado para o outro, a medir e a projectar e a discutir e a escavar e a rir e a arquitectar e a engonhar. Ainda não sabia o que tudo aquilo significava mas depois percebi: estavam a imaginar uma escola. 

– É isso que as pessoas têm de melhor. Imaginam. E por vezes conseguem concretizar o que imaginam.

– Fartaram-se de imaginar, de um lado para o outro. E depois construíram, foram construindo e construindo e eu a pensar: uau. A pensar: caramba. A pensar: isto é tão fixe.

– És uma árvore que se entusiasma muito.

– Pois sou. Especialmente quando as coisas correm como gosto. Que foi o que aconteceu com a escola. Passou-se tal e qual como desejara. Fui assistindo e vivendo o quotidiano da escola; apesar de não estar lá, aprendia tudo o que sempre sonhara aprender através do que observava, do que ouvia. Apesar de nunca sair do mesmo sítio, aprendia e sentia o mundo, que chegava até mim através das visões e sentimentos de todas as pessoas com quem me cruzava.

– Apaixonaste-te pelas pessoas. E as borboletas e caracóis, os coelhos selvagens e os pássaros, as sardaniscas?

– Continuaram as suas vidas e, à noite, faziam-me companhia. Mas com as pessoas fui aprendendo tudo sobre o mundo; e quanto mais aprendia, suspeitava que havia muito que ainda faltava aprender. O saber é como um bolo de chocolate: quanto mais comemos, mais queremos comer. Até doer a barriga.

– As árvores não comem bolo de chocolate. E não têm barriga.

– Mas além de me mostrar o mundo e o seu funcionamento, a escola ensinou-me algo mais importante. Ensinou-me a pensar. Por isso é que posso falar de coisas que não vi, como o bolo de chocolate. Porque as pensei. E sabes outra coisa que a escola me ensinou a compreender?

– Sou o deus das árvores. Sei tudo.

– Mas digo na mesma. Ensinou-me o que é o tempo. Fui envelhecendo, as folhas caíam e vinham outras novas, mas o meu tronco ia acumulando círculos. Os círculos do tempo. Como os relógios acumulam as voltas dos seus ponteiros. A escola mantinha-se fervilhante de vida, sempre agitada, sempre ruidosa. Os novos alunos que chegavam eram filhos dos primeiros alunos, que visitavam a sua antiga escola como adultos, como encarregados de educação. Era como uma repetição, os sorrisos e as birras eram iguais. Um ciclo. O tempo tinha passado, mas parecia que não. O tempo está sempre a passar, mesmo quando parece que não.

– Sempre. Toda a gente sabe isso. Menos as borboletas e caracóis, os coelhos selvagens e os pássaros, as sardaniscas.

– O tempo passou. Ainda havia muito para aprender, há sempre infinidades de coisas para aprender, mas as crianças que andavam pela escola iam diminuindo. Eram pouquinhas. E depois, nenhumas. Um dia, a escola fechou, ficou abandonada. Apenas paredes sem vida. Não sabia para onde teriam ido as crianças, como fariam para aprender. Preocupava-me com elas, mas também comigo. Lamentava-me: mas ainda tenho muito para aprender, ainda preciso viajar tanto… 

– Esqueceste que o tempo também estava a passar para ti. É como se fosses um relógio, e medisses o tempo da escola. Mas mesmo quando está a medir o tempo para os outros, o tempo também está a passar para o relógio. 

– As paredes abandonadonas foram caindo. E tudo voltou ao que era antes. Campo e nuvens, o cheiro da relva, borboletas e caracóis, silêncio. Eu a perguntar-me como iria prosseguir a minha vida, a minha viagem no tempo. Volta a aparecer um cão e a regar-me com o seu xixi. Como um ciclo que se encerra. Recordo o som do riso das crianças quando corriam ao acaso e desordenadamente pela escola. Revivo algumas memórias, pergunto-me com quem as partilharei, quem as recordará. Pergunto às sardaniscas: o que fica de nós, depois de desaparecermos? Quem toma conta do que resta de nós? As sardaniscas não respondem. Mas se falassem, talvez dissessem que há muitas formas de aprender, de conhecer, de descobrir, de viajar, de partilhar; e de recordar, de manter vivo o que já não é vivo…

– As sardaniscas sempre foram sensatas.

– Olhava para o céu azul, via as nuvens passarem. Gostava de ser nuvem e esvoaçar ao acaso. Conheces o deus das nuvens? Aposto que é um deus bem fixe.

– Por acaso, é.

– Olhava as nuvens e pensava que a vida até pode parecer um ciclo mas, na verdade, talvez seja uma linha sem fim. Não uma linha externa e imposta por alguém, e que temos de seguir obrigatoriamente; mas uma linha que nós próprios inventamos e seguimos, uma linha que improvisamos. E por isso é que a linha da nossa vida, a nossa pegada no mundo, pode parecer torta e confusa, cheia de curvas e voltas… 

– Como o rasto deixado na areia por uma sardanisca irrequieta.

– Uma linha que criamos e seguimos mesmo que sejamos uma árvore presa à terra, com raízes que nunca viram o sol. Deixei um rasto bonito no mundo, não deixei?

O deus das árvores sorri. Abre a porta do céu das árvores e deseja as boas vindas. Devagarinho, a árvore entra. Também está a sorrir.


(Conto escrito para a VI edição do Serão com Arte 

Transparência

Estou na varanda a apanhar sol e, como é hábito, penso disparates. Por exemplo: uma prova da inexistência de deus é o facto de as pessoas terem a pele opaca. Uma entidade perfeita, caso existisse, teria criado os humanos com pele transparente. Como a vida seria mais fácil e enriquecedora se pudéssemos olhar para dentro dos outros, e os outros para dentro de nós; ver a realidade pura, sem subterfúgios nem máscaras nem disfarces. O sol está forte e aquece-me a careca, o pensamento seguinte é óbvio: se a pele fosse transparente, bronzearia ou não? Rio um bocadito do disparate, e rir sozinho é um prazer bom, apesar de se achar que é coisa de doidos. Quando o riso passa, distraio-me com uma vizinha que se aproxima; talvez a veja uma ou duas vezes por semana e nunca lhe descobri um sorriso. Oito anos, zero sorrisos. Porquê? Se a senhora fosse transparente, talvez conseguisse perceber o que lhe rouba o sorriso; ou para quem o guarda. A vizinha desaparece e logo a esqueço, lembro-me que podia ir buscar um livro e ler um bocado; mas distraio-me com uns pássaros que esvoaçam como se não houvesse passado ou futuro, como se nada importasse além do simples bater das asas. Será que os pássaros têm depressões? Não, é impossível; qualquer ser que tenha a capacidade de voar estará geneticamente impedido de sentir tristeza. Se tivesse o telemóvel à mão, mandava uma mensagem a uma amiga veterinária a perguntar: os pássaros sentem tristeza? E depois íamos tomar um café. Talvez lhe dissesse: o facto de haver pássaros poderá ser uma prova da existência de deus, não achas? Contudo, penso eu enquanto o sol me aquece a pele, um deus que criasse pássaros voadores e, simultaneamente, homens incapazes de voar seria um deus algo perverso; caso em que se aplicaria o verso de uma antiga música: “Penso que deus tem um sentido de humor doentio e quando eu morrer espero encontrá-lo a rir.” Em inglês soa mais bonito. E de repente apetece-me ouvir discos. Mas não posso ouvir discos e apanhar sol ao mesmo tempo. Por isso, assobio a música, baixinho. Os pássaros sentirão inveja dos humanos? Talvez gostassem de conseguir assobiar; ou de desenhar; ou de voar dentro de aviões; ou de comer entrecosto com batatas fritas e, no final, lamberem os dedos; ou de, simplesmente, ter dedos. Não sabemos. Na verdade, não sabemos nada sobre nada, como dizia um filósofo com nome de político. Os pássaros desapareceram e continua a apetecer-me ouvir discos. Não é ouvir música, é ouvir discos. O quase imperceptível sibilar da agulha no vinil lembra que nem a música pode aspirar à perfeição (apenas alcançável aos deuses); é o ruído do sibilar que torna a música humana. Ou poderá a música provar que os homens que a criam são, momentaneamente, deuses? Fazer música deve ser como voar, e eu sou incapaz de ambas as coisas. Resta-me ir lanchar, para distrair os disparates. Ah, penso de repente: se a pele fosse transparente, ver-se-ia a digestão. Afinal, talvez a opacidade seja útil. É possível que após o lanche escreva sobre tudo isto; o que será mais um disparate, porque escrever é uma forma de transparência.

(Crónica para o Jornal de Leiria)